Pular para o conteúdo principal

[88]

Trago à baila novamente a questão sobre se há um gênero literário mais apropriado para a expressão da filosofia. Quatro filósofos respondem à questão, lá no final da entrevista, a última. Nenhum deles, é verdade, diz algo de muito interessante ou que já não fosse esperado. Todos parecem estar acomodados com a hegemonia do gênero acadêmico. Apenas um deles nota o hermetismo provocado pelo pedantismo acadêmico. O diálogo é lembrado por Barry Stroud como gênero notável para a expressão filosófica, mas de difícil realização. Curioso nenhum deles ter lembrado do ensaio. 

Claro que expressar a filosofia em forma de prosa lhe permite uma articulação maior das idéias e um texto que procura explicitamente apresentar argumentos e justificativas para uma idéia filosófica é, digamos, mais filosófico que um outro que apenas apresenta essa idéia. Mas o que seja uma justificativa também para uma idéia é algo variável. Nada impede que uma idéia moral, por exemplo, seja justificada em um romance por metáfora ou pela descrição da vivência de uma situação.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[160] O valor da vida

Uma vida feliz pode não ter valor algum.  Este é um julgamento que podemos fazer externamente. Eu posso, de fora, olhar a vida de outra pessoa, reconhecer uma certa abundância de felicidade, de bem-estar, mas negar valor a esta vida, negar que seja uma vida louvável de ser vivida, o que não implica que não seja aceitável que seja vivida. Poderia alguém, no entanto, fazer o mesmo julgamento a respeito da sua própria vida? Acho que não. Pode realmente alguém reconhecer a sua vida como, no geral, feliz sem reconhecer, ao mesmo tempo, que ela tenha valor? Mesmo alguém que tenha muitos prazeres, mais prazeres que sofrimentos, se esta pessoa não vê o viver desses prazeres como algo louvável de ser vivido, ele não reconhecerá a sua vida como uma vida feliz. Ele necessariamente sentirá uma falta ou ausência que o afasta da vida feliz.  A incógnita que carregamos em nossos corações é que não temos por certo esse ponto arquimediano a partir do qual poderíamos julgar o valor de nossas vidas. Gos...