Pular para o conteúdo principal

[93] Liberdade e Compatibilismo

Liberdade negativa ou liberdade da espontaneidade é a capacidade que o indivíduo tem de agir segundo a sua vontade ou desejo (Hobbes, Hume). Na ausência de obstáculos, se o sujeito tem uma vontade, ele é capaz de realizar a ação que satisfaz essa vontade e dizemos que a ação foi livre mesmo que a sua vontade tivesse sido determinada por algum processo causal anterior, provavelmente inconsciente. Esse tipo de liberdade parece ser essencial para a atribuição de responsabilidade. Se não vemos o sujeito como produtor da sua ação, não tendemos a lhe imputar responsabilidade pela ação resultante. Se o braço do indivíduo A é movido por B para atingir C, não diremos que A é responsável pela dor causada em C, já que a ação de bater em C com o seu braço não foi produzida por ele, nem emergiu de alguma vontade sua.

Guardemos essa intuição sobre a atribuição de responsabilidade: o sujeito deve ser o produtor da sua ação, devemos percebê-lo como sendo a causa da sua ação, isto é, ela tem de partir da sua vontade.

Por outro lado, uma segunda intuição que temos sobre a atribuição de responsabilidade, que, na verdade, podemos entender como sendo a contraparte negativa da primeira intuição, é que a ação não pode ter sido coagida ou compelida, isto é, nenhuma causa externa deve ter compelido o sujeito à ação resultante. Enquanto a primeira intuição nos leva à liberdade da espontaneidade, demandando-nos ver a vontade do sujeito como causa da sua ação, a segunda intuição nos leva à noção de liberdade de indiferença (Kant), demandando-nos ver a vontade do sujeito como não necessitada por nada, pois, de outro modo, temos a impressão de que o sujeito foi compelido a agir. A liberdade de indiferença não pode ser atribuída à ação sem ferir a primeira intuição, pois se as ações não são necessitadas, ferimos a primeira intuição, isto é, não vemos o sujeito como produtor destas ações e assim tampouco lhe atribuiríamos responsabilidade. A liberdade de indiferença deve ser aplicada à vontade.

E a dificuldade grave é que, enquanto a liberdade da espontaneidade junto com a primeira intuição da atribuição de responsabilidade pressupõem a necessidade, isto é, a relação causal entre eventos, pois temos de ver o sujeito como causa da sua ação, a liberdade da indiferença junto com a segunda intuição negam a necessidade entre eventos, pois temos de ver a vontade do indivíduo como não-necessitada, como não causada por nada.

E não pára por aí: se a vontade do sujeito é completamente indeterminada, não-causada, qualquer ação do sujeito parecer-nos-á arbitrária, tanto quanto a sua vontade. Neste cenário, mesmo a vontade sendo a causa da ação, pelo fato de a primeira ser arbitrária, veremos a segunda também do mesmo modo, ferindo, assim, a primeira intuição da atribuição de responsabilidade. Em outras palavras, a primeira intuição parece demandar não apenas que a vontade do sujeito seja a causa da sua ação, mas que esta vontade esteja, de alguma forma, assentada em algo mais sólido, que ela nos soe coerente e compatível com o sujeito. Esse terreno mais sólido do qual deve provir a vontade causadora da ação, Hume chama de 'caráter'. Não à toa, à medida que vamos conhecendo o caráter de Raskólnikov, abrandamos a culpa que lhe atribuímos pelo assassinato da velhinha. Sua ação de homicídio não emergiu de uma vontade que nos pareça enraizada em seu caráter; ela nos soa mais como o produto de fatores circunstanciais dos quais Raskólnikov não tinha controle e, justamente por isso, por não notarmos uma vontade homicida no seu caráter, abrandamos o nosso julgamento.

Isso nos força a pensar que talvez a segunda intuição da atribuição de responsabilidade deva ser atendida de outro modo, sem requerer a liberdade de indiferença. O que conta como sendo uma ação compelida ou não não deve depender de uma vontade não-necessitada, devemos ter outros critérios para essa distinção.

Comentários

Anônimo disse…
o que eu estava procurando, obrigado

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[82]

A filosofia de boteco, aquela feita sem muita preocupação acadêmica, através do livre pensar, ainda pode mudar a vida de uma pessoa, pode ter um efeito sobre o seu comportamento e até mesmo sobre a sua psicologia, despertando ou retendo emoções. Mas o que muda na vida de uma pessoa ao entrar numa discussão mais técnica sobre indexicais, a natureza conceitual da experiência perceptiva e outras coisas mais obstrusas? Muito pouco ou quase nada. Ou talvez mude, pode ser que aqui o correto fosse pensar que importa mais a filosofia estar adequada à linguagem a qual a pessoa está acostumada, que ela seja inteligível, e um perito em indexicais certamente vai incorporar cada nova informação sobre o assunto ao seu mundo e à sua práxis.