Apesar da resenha não ser completamente positiva e apontar para algumas faltas e falhas consideráveis, eu gostaria de ter a grana para comprar o livro (The Phenomenological Mind, Gallagher) resenhado por Beaver. A fenomenologia está novamente em alta, como já havia salientado em [91]; não, obviamente, como um projeto de descobertas aprioristicas como fora no passado. Agora é preciso acomodá-la ao paradigma naturalista dominante. Neste quadro, a fenomenologia tem uma função bem específica a cumprir: descrever bem a nossa experiência. Muitos estudos cognitivos e neurológicos pecam em seus resultados por partirem de descrições ruins ou equivocadas da experiência, em especial, quando a temporalidade está envolvida. A fenomenologia, assim, reaparece como um método descritivo cujo objetivo é capturar, na perspectiva da primeira pessoa, o que se passa na sua experiência e, ao mesmo tempo, fazê-lo de uma forma "rigorosa", apropriada para fins científicos. É possível? Não sei. Antes é preciso olhar que tipos e quais critérios deseja-se aplicar à descrição fenomenológica para torná-la mais "objetiva" e avaliar o que se perde em termos do vivido e do que se ganha na correção descritiva. Eu mesmo fico chocado quando leio Dostoievski e tomo ciência do quanto sou incapaz de descrever com detalhe e acuro o que se passa comigo. Vem-me a dúvida: desconheço-me mais pela minha falta descritiva ou a descrição fenomênica serve apenas para transcrever em uma codificação conceitual algo que já sei intimamente, de modo não verbal? Não descubro nada de novo quando me descrevo, deixando de lado, claro, a obviedade de que venho a notar mais detalhes de uma coisa quando redobro a atenção sobre essa coisa?
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
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