Caminhamos ou desejamos caminhar para a verdade, seja a de si, ou a de outrém, ou de alguma coisa. O caminho já é turvo pelas nossas finitudes, pelos preconceitos que não saem à primeira análise. Adicione a isso tudo o maior dos obstáculos: a vaidade. Nas discussões lá está ela acentuando a discordia e impedindo a convergência pelos métodos mais infames: mentira, descrença e aparência. A vaidade faz com que o homem se despreenda da sua evidência interna. Sua mente corre livre e solta para fabular e confabular, respeitando apenas a evidência externa, a voz alheia que se deseja solapar. As próprias chagas já não são sentidas, mas somente aquelas que os outros apontam e cutucam. Para vencer, para saciar a sua sede de poder, o homem se liberta do seu sentido de correção em nome do seu sentido de aparição. Ele se descrê para que o outro lhe creia. Com duras marteladas esse homem desvia a sua rota da verdade para a mentira. Pouco importa desde que seu nome belo e sublime continue intocável. Se lá não chegaremos que ao menos possamos olhar a cada instante com deleite o nosso simulacro no espelho. No fundo, o homem mente para si ao dizer-se curioso. Tal dizer é apenas mais uma pincelada da sua máscara.
Irracionalismo é a tese de que os nossos julgamentos são arbitrários. O irracionalismo pode aplicar-se apenas a um setor do conhecimento humano. Por exemplo, podemos ser irracionalistas morais. Assim, julgamentos morais sobre como agir, o que fazer, o que é certo e errado são arbitrários, não temos uma razão para eles, eles não se fundam em nada que possa legitimá-los diante dos outros. Podem ser fomentados por nossas emoções ou desejos, mas nada disso tira a sua arbitrariedade diante da razão. Chegaríamos ao irracionalismo moral se tivéssemos razões para pensar que não há nada na razão que pudesse amparar julgamentos morais. Isto é, dado um dilema moral do tipo "devo fazer X ou ~X", não há ao que apelar racionalmente para decidir a questão. Donde se seque que, qualquer decisão que você tomar, seja a favor de X, seja de ~X, será arbitrária. Como poderia a razão ser tão indiferente à moralidade? Primeiro vejamos o que conferiria autoridade racional a um julgamento moral, pois ...
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