Pular para o conteúdo principal

[113] Filosofia Brasileira II

Almejamos que a filosofia no brasil se transforme no futuro em filosofia do brasil, isto é, almejamos que os estudos filosóficos feitos em território brasileiro se transformem no futuro em estudos filosóficos que expressam filosofias genuínas. Esta é a meta. É uma meta que, vamos supor, é compartilhada, embora com diferentes graus de consciência, por professores e alunos. Dados o fato de alunos e professores terem diferentes graus de compreensão quanto ao significado desta meta e a meta ela mesma, podemos nos perguntar: o que deve cada professor e aluno fazer em razão desta meta? Que a resposta não seja a mesma em cada caso parece evidente. Pode-se dizer que o professor é mais responsável que o aluno para a obtenção da meta, uma vez que tem dela um entendimento mais profundo. Além disso, eles possuem meios diversos para a obtenção da meta. Assim, a maneira como professores e alunos devem empregar estes meios difere.

O que o professor pode e deve fazer? Ele deve, antes de mais nada, tentar deixar claro ao aluno o processo histórico da filosofia no Brasil, indicando-lhe exemplarmente o tipo de trabalho filosófico que se tem feito hoje, mais historiográfico, e que é estimulado pela academia e o tipo de trabalho de índole mais filosófica e que se espera que venha a ser um dia também padrão na academia, sem exclusão do anterior. Em seguida, deve o professor estimular o aluno a realizar ambos os tipos de trabalho, para que ele mesmo se encontre, para que ele mesmo sinta para qual tipo de trabalho suas aptidões naturais foram talhadas. Deve o professor dedicar tanto cuidado na avaliação e entendimento das idéias de seu aluno quanto dedica aos seus autores e filósofos prediletos. Deve, a partir deste entendimento do pensamento do aluno, dialogar com ele argumentativamente, estimulando-o a pensar e a responder às críticas. Não deve o professor jamais menosprezar as idéias dos seus alunos, embora esteja no direito e mesmo no dever de expressar que são ruins, desde que dê as razões para que o aluno entenda o porquê. Enfim, cabe ao professor lutar para que a situação mude, para que o espaço dos tipos de trabalhos valorizados e desejáveis se amplie. E o mais importante: assim como as crianças assimilam o comportamento ético dos seus pais não tanto pelo que eles dizem, mas muito mais pelo que eles fazem, também assim age o pupilo acadêmico. Deste modo, é um dever primordial do professor dar exemplos de filosofar genuíno a partir dos seus próprios punhos ou ao menos dar mostras de que persegue o filosofar incansavelmente.

E ao aluno, cabe a ele apenas esperar que esse espaço se amplie? Não, definitivamente, não. Mesmo que seus professores não façam nada para facilitar a sua expressão filosófica, mesmo que ele tenha uma compreensão menos profunda da meta exposta, cabe a ele também lutar por aquilo que acredita e deseja, em especial, que suas idéias tenham algum valor. Se deseja que a situação seje outra, que haja espaço para expressar suas idéias, não pode meramente querer que os outros, os professores, lutem para trazer esse espaço à tona, ele mesmo deve, até aonde os seus meios permitirem, lutar para tanto. Se não consegue que seus textos filosóficos sejam lidos e devidamente comentados pelos seus professores, alie-se aos seus colegas, discuta e dialogue com eles. Procure outros professores ou ainda faça-se de si mesmo o seu mais agudo crítico, enfim, lute para filosofar tanto quanto puder. O aluno que não filosofa por falta de um espaço público para o filosofar é tão culpado quanto o professor que o recrimina por fazê-lo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...