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[118] Fenomenologia da liberdade e o sentido da vida

Uma vida hedonista pode, na perspectiva daquele que a vivencia, ser repleta de sentido. O que potencializa a percepção do sentido, neste caso, é a satisfação contínua de desejos. Ou talvez, de modo negativo, o hedonista não perceba vazio em sua vida pelo fato de não se sentir impotente ou neutralizado por obstáculos que não conseguiria superar. Claro que o seu sucesso neste tipo de vida depende de os seus prazeres serem digamos fáceis.

Uma vida hedonista repleta de sentido na perspectiva interna pode ser completamente destituída de sentido para aqueles que o observam. Mas isso só ocorre porque coletivamente demandamos uns dos outros e de nós mesmos uma vida que transborde em bens em alguns ou vários momentos da vida. Isto é, uma vida terá tanto mais sentido externo quanto mais bens gera para o que lhe é externo, pessoas, animais ou até algo inanimado como o planeta. Este sentido externo para a vida pode muito bem também ser o sentido interno para a vida se a demanda por transbordar em bens não é apenas coletiva, mas é sobretudo interna e pessoal. 

Quanto maior a amplitude do bem esperado, menor a probabilidade de obtê-lo. Não importa, desde que difícil, mas não impossível, continua-se a experienciar o sentido da vida enquanto lutamos pelo bem. Aqui a experiência da liberdade é fundamental. Pouco importa a verdade ou falsidade teórica do determinismo. Desde que tenhamos a percepção de que podemos vencer determinados obstáculos, por mais esforço que exija, dentro de limites realistas, para a obtenção  destes bens ampliados, nos sentimos livres. Sentimos que temos controle sobre os meios para obter o fim. Sem esta percepção da liberdade, a vida cessa de ter sentido. Veja que não é pela não-obtenção dos bens ampliados que a vida deixa de ter sentido. No meio do caminho, a minha vida pode me ser tirada sem que isto elimine o seu sentido, seja interno, seja externo. O que bloqueia o sentido da vida é a impossibilidade percebida da obtenção dos bens ampliados.

Claro que os juízos aqui podem divergir e variar. As pessoas têm diferentes limiares de paciência e persistência. O que alguém percebe como impossível realisticamente pode ser perfeitamente viável para outra pessoa. E, assim, enquanto um sujeito sente que a sua vida perde sentido por não se sentir livre e capaz de obter os bens ampliados que ela demanda, um observador pode igualmente afirmar que a vida deste sujeito perdeu o sentido, mas por uma razão diversa: por ele ter desistido de perseguir bens ampliados que estavam ao seu alcance.

No meio desta história coopera a esperança, às vezes com razão, mas muitas vezes sem. A esperança se inflitra na percepção que o sujeito tem quanto à viabilidade de obter os seus bens ampliados. Mesmo que lhe seja impossível alcançá-los, os sujeitos sentem que podem e, ao sentir que podem, continuam a perceber as suas vidas como dotadas de sentido. Mas tudo pode não passar de uma ilusão. Presente grego da natureza que muitas vezes ama mais a preservação do indivíduo que ele mesmo. 

 

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