Eu creio que há uma mesa no meio da minha sala, pois acabo de olhar para ela. Formei a crença. Por quanto tempo é razoável atribuir-me esta crença? Alguns minutos mais tarde, já na rua, cotinuo a acreditar que há uma mesa no meio da minha sala, sem estar em condições de vê-la neste instante e, ainda assim, estou justificado a ter e manter esta crença. Quais os critérios para atribuir a manutenção da crença? A resposta correta parece-me ser: depende do que se sabe sobre a constância do objeto da crença. No caso em questão, o objeto da crença é o lugar em que a mesa se encontra. Sabemos que uma mesa não muda de lugar sozinha e na ausência de qualquer razão contrária à sua permanência no lugar onde se encontra, estamos justificados a assumir que ela continua onde estava e, portanto, não emerge a necessidade de novas verificações. Na ausência desta necessidade, estamos licenciados a atribuir a permanência da crença. A situação é diferente, por exemplo, se o objeto da crença fosse a quantidade de água em um copo que está sendo enchido por uma torneira. Eu ver em t que 1/3 do copo está cheio não é suficiente para manter a crença em t' de que ainda apenas 1/3 do copo está cheio. Pelo que sabemos sobre copos sendo enchidos por água, não é razoável supor que não houve mudança entre t e t' no que diz respeito à quantidade de água no copo. Há aqui necessidade de novas verificações e, portanto, a crença atribuída em t não pode ser mantida em t'. Seu prazo de validade é muito curto. Em geral, então, o prazo de validade de uma crença depende do que sabemos sobre a constância do objeto da crença. Isso se aplica a objetos físicos e mentais. Uma dor de cabeça, como sabemos, leva um tempo para passar. Assim, se, em t, formo a crença de que estou com dor de cabeça, por estar atento a ela, pode-se atribuí-la a mim em t', mesmo que, em t', eu não esteja atento a dor de cabeça e, por estar muito concentrado em outras tarefas, eu não esteja nem mesmo ciente dela. Pelo fato de a dor de cabeça não ser muito volátil, a crença na dor de cabeça tem um prazo de validade mais lato.
Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...
Comentários