Pular para o conteúdo principal

[191] Crença, um bem comum


Quando respeitamos o intelecto dos outros e o nosso próprio, discutimos as crenças dos outros e colocamos as nossas em discussão, é simples. Pensar que respeitar a crença do outro (ou a sua própria) implica em jamais discuti-la parece presumir que o "intelecto" não tem qualquer interesse pela verdade ou talvez que a verdade seja completamente uma função das suas crenças. Ambas as alternativas não são muito plausíveis. Evidente que não somos apenas intelecto, nem que a verdade seja o nosso único interesse. Não temos de ser chatos conosco ou com os outros na discussão das crenças. A discussão cabe em alguns lugares e em alguns momentos. Nem tem de ser gratuita; acerca de alguns tópicos, pode ser que ela demande motivação. As crenças apenas não estão absolutamente imunes à discussão, como se tivéssemos com elas uma mera relação de propriedade, “são minhas e ninguém tem nada a ver com isso”. Não é bem assim se você tem alguma vida em comum e não é bem assim se você tem algum interesse pela verdade objetiva. Por fim, o que talvez alguém queira razoavelmente dizer ao afirmar: “respeite a minha opinião” é: “respeite a finitude do meu intelecto, dê-me tempo para pensar etc”. Por várias razões, a justa resposta à discussão não tem de ser pronta e imediata. Não tem mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[160] O valor da vida

Uma vida feliz pode não ter valor algum.  Este é um julgamento que podemos fazer externamente. Eu posso, de fora, olhar a vida de outra pessoa, reconhecer uma certa abundância de felicidade, de bem-estar, mas negar valor a esta vida, negar que seja uma vida louvável de ser vivida, o que não implica que não seja aceitável que seja vivida. Poderia alguém, no entanto, fazer o mesmo julgamento a respeito da sua própria vida? Acho que não. Pode realmente alguém reconhecer a sua vida como, no geral, feliz sem reconhecer, ao mesmo tempo, que ela tenha valor? Mesmo alguém que tenha muitos prazeres, mais prazeres que sofrimentos, se esta pessoa não vê o viver desses prazeres como algo louvável de ser vivido, ele não reconhecerá a sua vida como uma vida feliz. Ele necessariamente sentirá uma falta ou ausência que o afasta da vida feliz.  A incógnita que carregamos em nossos corações é que não temos por certo esse ponto arquimediano a partir do qual poderíamos julgar o valor de nossas vidas. Gos...