Pular para o conteúdo principal

[196] Especialização, (ir)relevância, e progresso do conhecimento


"I want to explain why I think that much of the specialisation of contemporary philosophy is not a bad thing after all. In large part my argument depends on the engagement of philosophy with rest of knowledge. I want to defend the specialisation in philosophy that is a consequence of the overlap between a subfield of philosophy and another specialised subject matter, where that may be the history of philosophy itself [...] Our knowledge of the world has grown immeasurably since ancient times, and philosophers would be failing in their role if they did not specialise sufficiently to know enough to be able to point out exactly where lie the limits of our understanding"[1].

Não é incomum a ciência como um todo ser acusada de realizar muitas pesquisas irrelevantes[2]. Serviria de indício para essa acusação o fato de que artigos científicos são muito pouco lidos pelo público em geral. Nessa linha, alguém poderia alegar que a pesquisa acadêmica não atende as demandas sociais e existenciais que nos afligem diariamente e, por isso, não desperta o interesse. Contudo, é verdade que a ciência produz muitas pesquisas irrelevantes? Nas áreas mais tocadas pelo produtivismo, há certamente incentivo para a indiferença quanto à relevância e para o relaxamento do padrão de qualidade. Esse é um problema com o qual a comunidade científica tem de lidar mais seria e urgentemente[3]. O que dizer da ciência funcionando em condições mais benignas? Há uma característica fundamental da ciência contemporânea que poderia explicar em boa medida esse amplo desinteresse pelos artigos acadêmicos, mas não a sua suposta irrelevância: a especialização. Sem ela, não teríamos o conhecimento acurado e refinado que possuímos hoje nas mais diferentes áreas do saber. Ao mesmo tempo, o preço que pagamos por esse conhecimento profundo é justamente a sua opacidade para a maioria dos indivíduos.

Mas não seria importante que os resultados avançados fossem explicados em uma linguagem não-técnica para não-especialistas? Sem dúvida, esse não é um trabalho de importância menor, meramente informativo, de divulgação e, na melhor das hipóteses, necessário para justificar ao contribuinte por que ele financia a pesquisa. Esse é um trabalho que envolve criar pontes entre diferentes linguagens e entre diferentes disciplinas, é um trabalho que tem também como resultado, quando bem feito, maior integração entre as partes que compõem a rede complexa que é o conhecimento humano, é um trabalho que nos faz avançar na compreensão do próprio conhecimento humano. Uma razão ainda mais fundamental para que haja esse tipo de trabalho é que não podemos esperar que as pessoas aceitem, e por conseguinte, se beneficiem da verdade daquilo que elas não têm a menor ideia de como pode vir a ser conhecido. A autoridade do especialista não implica autoritarismo intelectual. Para que o cidadão defira aos especialistas, ele precisa reconhecê-los como tais e confiar neles. É fundamental, portanto, que ele entenda minimamente o que se passa na Ciência. Para que esse tipo de trabalho de tradução e conversação com o público leigo seja bem feito, exige-se tempo, dedicação e um certo tipo de especialização[4]. Não é um tipo de trabalho que devamos exigir de todo especialista. Também aqui nos beneficiamos da divisão social do trabalho cognitivo[5].

Por fim, é preciso tomar algum cuidado também com a alegação de que um resultado de pesquisa é irrelevante. Irrelevante para quem ou em relação ao que? Um resultado de pesquisa ser diretamente irrelevante para aplicações ou para a solução de problemas sociais ou mesmo existenciais não implica que ele seja irrelevante para a dinâmica da disciplina a que pertence e para o progresso do conhecimento científico como um todo. De acordo com Thomas Kuhn[6], sem puzzles, a maioria deles diretamente insignificantes para as nossas demandas mais urgentes e práticas, não há ciência normal. Muitas das grandes questões que, do ponto de vista social ou existencial, gostaríamos que fossem respondidas - por exemplo, o que veio, se algo, antes do big bang? - não contam ainda com um paradigma ou programa de pesquisa que nos dê alguma orientação mais detalhada acerca de como respondê-las. Ciências maduras lidam com questões que podem ser abordadas e respondidas pelas ferramentas conceituais e instrumentais fornecidas pelos paradigmas que as governam. No caso dessas ciências, o critério de relevância para pesquisas é muito mais interno à disciplina que externo. Foi só assim que obtivemos o progresso notável em termos de acurácia e precisão nos últimos séculos em disciplinas como a física, a química e a biologia. Abrir mão da especialização significaria abrir mão do controle e da compreensão aprofundadas que obtivemos da natureza.

A filosofia não é ciência, muito menos ciência normal. Todavia, na medida em que ela se dedica a refletir acerca de alguma área do saber, ela terá que se especializar para fazer justiça à especialização que esse saber encerra. Nem toda investigação filosófica será tão hermética, mas é difícil conceber e conceder que alguma séria não atinja uma profundidade e complexidade que é igualmente difícil de acompanhar e assimilar.
 

[3] "Fewer numbers, better sicence"  http://www.nature.com/news/fewer-numbers-better-science-1.20858?WT.mc_id=TWT_NatureNews

[4] Nessa excelente matéria, o autor fornece várias razões para por que a comunicação de resultados científicos para leigos demanda especialização. E o que é alarmante, cientistas normalmente falham em comunicar apropriadamente.

[5] Kitcher, Philip. "The Division of Cognitive Labor". The Journal of Philosophy, V. 87, N. 1, 1990, p. 5-22.

[6] Kuhn, Thomas. “A ciência normal como a resolução de quebra-cabeças”. In: A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva, 1997, p. 43-56.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…