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[197] Breve introdução à tese da mente estendida


A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. A última tese alega que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Putnam argumentou em favor dessa tese nos anos 70 apoiando-se, em parte, no experimento mental da Terra Gêmea[1]. Nos seus textos sobre o tema, Putnam nos convida a imaginar um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido para a sobrevivência tanto quanto nós. Esse planeta é tão semelhante ao nosso que lá você encontra um "gêmeo" (doppelgänger) seu, alguém com a sua aparência, com praticamente a mesma história que a sua, as mesmas relações etc. Na Terra Gêmea, o líquido que os seus habitantes bebem para matar a sede também é chamado de “água”. Contudo, na Terra Gêmea, o líquido que os habitantes de lá chamam de “água” não é água, isto é, não é H2O, mas uma substância com uma composição química diversa, digamos, XYZ. De acordo com Putnam, apesar de um falante da Terra e o seu gêmeo da Terra Gêmea terem as mesmas experiências internas quando percebem o líquido que chamam de “água”, eles não significam ou se referem a mesma coisa quando usam o termo “água”. O habitante da Terra se refere à água quando usa “água”, enquanto o seu gêmeo da Terra gêmea se refere à XYZ quando usa o termo “água”. A diferença entre as referências do termo “água” quando usada pelo habitante da Terra e quando usada pelo habitante da Terra Gêmea se deve ao diferente histórico de relações causais que esses habitantes têm com os objetos e substâncias dos seus respectivos ambientes. Assim, muito embora o habitante da Terra e o habitante da Terra Gêmea tenham estados mentais e cerebrais semelhantes ou idênticos, o conteúdo dos seus estados mentais difere. A aparência da água para o habitante da Terra não é diferente da aparência da substância XYZ para o habitante da Terra Gêmea, mas eles pensam em coisas diferentes quando usam o termo “água” para se referir à substância que encontram em seus respectivos planetas[2].

A tese da mente estendida faz uma alegação diferente. Ela sustenta que pelo menos alguns dos estados ou processos mentais do indivíduo são constituídos pelas interações ativas que este indivíduo tem com o ambiente. É uma tese sobre estados ou processos mentais, não sobre o conteúdo de estados mentais. Essa tese pode significar, por exemplo, que algumas crenças do indivíduo se estendem para fora do seu cérebro, ou que o processo cognitivo que resulta na percepção de um tomate se estende para fora do cérebro.

A tese da mente estendida foi explicitamente introduzida por Clark e Chalmers no artigo “The Extended Mind”[3], embora versões dela possam ser encontradas na obra de Merleau-Ponty, Michael Polanyi, William James, James Jerome Gibson e outros. No artigo de Clark e Chalmers, a tese foi articulada a partir de um experimento mental. Somos convidados a imaginar um sujeito, Otto, cujos mecanismos cerebrais responsáveis pela memória de longo prazo foram severamente danificadas. Otto começa a usar um caderno de notas para registrar as informações que são relevantes para as suas tarefas cotidianas. Com o tempo, Otto se torna fluente, habilidoso e confiável na recuperação de informações registradas no caderno. Se o comparamos com Inga, uma pessoa com memória normal, parece que o caderno cumpre na cognição de Otto o mesmo papel que as partes cerebrais responsáveis pela memória de longo prazo cumprem para Inga. Imagine agora que Inga deseja ir à Casa de Cultura Mario Quintana. Ela consulta a sua memória e lembra que ela fica na Rua dos Andradas, no Centro Histórico. Se ela é confiável em recuperar essa informação, então diríamos que, antes de uma consulta, ela tem a crença não-ocorrente de que a Casa de Cultura Mario Quintana está localizada na Rua dos Andradas. Agora imagine que meses atrás Otto registrou essa informação no seu caderno depois de visitar a Casa de Cultura. Otto agora quer ir na Casa de Cultura. Ele manipula o seu caderno e em segundos recupera a informação da sua localização. Vamos supor que ele seja tão confiável quanto Inga na recuperação dessa informação. Assim, o caderno de notas parece desempenhar no ato de lembrar de Otto a mesma função[4] que as partes responsáveis pela memória de longo prazo desempenham no ato de lembrar de Inga. Não seria razoável, então, nessas condições, dizer que, antes da consulta, Otto tinha a crença não-corrente de que a Casa de Cultura Mario Quintana está localizada na Rua dos Andradas? Se sim, então parece que essa crença se estende para fora do cérebro de Otto, ela envolve o caderno que ele usa para registrar e recuperar informações relevantes. Segundo essa leitura do experimento mental de Clark e Chalmers, a crença de Otto, que é um estado mental, se estende ao seu caderno de notas[5].

Um caso mais mundano. Um sujeito está jogando Tetris e precisa decidir se a peça que aparece na parte superior da tela pode ser encaixada nas peças na parte inferior da tela. O sujeito pode imaginar essa peça rotacionada e comparar essa representação gerada com as peças na parte inferior da tela. Por meio desse processo, ele resolve a tarefa cognitiva de decidir se a peça nova pode ser encaixada ou não. Alternativamente, ele poderia, usando um controle, rotacionar a peça na parte superior da tela e comparar diretamente a peça em sua nova orientação com as peças na parte inferior da tela. Nesse caso, o indivíduo teria descarregado nas suas interações com o ambiente parte do processo cognitivo que de outro modo ele teria de levar adiante pela imaginação. Por meio de ações e intervenções no ambiente, ele realiza parte do processo que cumpre a tarefa cognitiva de decidir se a peça nova pode ou não ser encaixada nas peças na parte inferior da tela. Nesse caso, o processo cognitivo se estende para fora do cérebro, ele envolve as operações de rotacionar a figura na tela do computador.

Em ambas as situações, as interações do indivíduo com o ambiente são ativas, isto é, elas envolvem comportamentos dirigidos por intenções, por exemplo, a manipulação do caderno de notas ou a movimentação de um controle para rotacionar peças na tela. Assim, essas interações envolvem ações do indivíduo. Para Clark e Chalmers, esse é um ponto importante para distinguir o externismo ativo que eles defendem do externismo semântico, que eles qualificam como passivo (1998, p. 8-9). Essas considerações são importantes para distinguir e explicitar como o ambiente importa para a tese da mente estendida e para a tese do externismo semântico. No caso do externismo semântico, (1) as interações do indivíduo com o ambiente não precisam ser ativas e (2) importa muito mais o histórico de interações causais do que as interações mais recentes. Por isso mesmo, se o indivíduo da Terra for transportado para a Terra Gêmea, ele continua a pensar em água quando usa referencialmente o termo "água", ainda que esteja agora vendo e interagindo com a susbstância XYZ - consequentemente, tendo crenças falsas. Em contraste, para o externismo ativo, as interações têm de ser ativas e importa mais o ambiente aqui e agora, isto é, o ambiente contemporâneo às interações ativas. O jogador de Tétris realiza agora a sua tarefa cognitiva rotacionando a peça que se encontra na parte superior da tela. Importa apenas o ambiente envolvido nas suas interações ativas e correntes.

A principal dificuldade para a tese da mente estendida, seja aplicada a estados mentais, seja aplicada a processos cognitivos, é apresentar razões para preferir a hipótese de que as interações com o ambiente constituem estados mentais e processos cognitivos ao invés da hipótese de que elas são condições causais habilitadoras, ainda que necessárias, para o vir a ser desses estados mentais e processos cognitivos[6]. No caso de Otto, poderíamos dizer que as manipulações do caderno o habilitam a perceber a informação de que a Casa de Cultura Mário Quintana se localiza na Rua dos Andradas. Essas manipulações habilitam a sua percepção, que é onde começa a cognição que o levará à crença, baseada então na percepção e não na memória, sobre a localização da Casa de Cultura. Os estados mentais de Otto não se estenderiam, então, para fora do cérebro, embora dependam casualmente do ambiente para existirem. O caso do jogador de Tetris poderia ser reinterpretado de modo semelhante.

A hipótese constitutiva é defendida pela alegação de que, ao menos em alguns casos e situações, o organismo e o ambiente estão tão fortemente acoplados um ao outro que a melhor explicação para o comportamento do organismo exige a consideração de variáveis ambientais e a melhor explicação para a alteração dessas variáveis ambientais exige a consideração de variáveis do organismo. Assim, o organismo e o ambiente são relacionados em um sistema acoplado (coupled system). Sistemas dessa natureza, em que as relações causais entre organismo e ambiente são simétricas, isto é, características do organismo e do ambiente constrangem causalmente umas as outras ao longo do tempo, são sistemas que sustentam a leitura constitutiva da interação entre organismo e ambiente e, portanto, ao menos nesses casos, apoia a tese da mente estendida. Nesses casos, a retirada de parte do ambiente ou de parte do organismo teria um efeito desregulador no comportamento de ambos. O papel do ambiente não seria, portanto, apenas o de habilitar causalmente processos e estados cognitivos no organismo[7].

Vemos, assim, que a tese da mente estendida envolve pelo menos três ideias: o externismo ativo, que enfatiza a relevância do ambiente corrente para os estados e processos cognitivos, o acoplamento entre ambiente e organismo, que assinala a indispensabilidade de qualquer um dos termos para explicar o desdobamento de ambos, favorecendo a leitura constitutiva da interação, então causal e simétrica, entre organismo e ambiente, e o funcionalismo, que rejeita a relevância da distinção entre interno e externo para a compreensão da mentalidade e da cognição.

[1] Putnam, Hilary. "The meaning of ‘meaning’". In: PUTNAM, Hilary. Mind, language and reality: philosophical papers. Cambridge: Cambridge University Press, 1975, p. 215-271.

[2] Para uma apresentação e discussão detalhada do argumento de Putnam, veja Schirmer dos Santos, César. "Os significados não estão na cabeça: Putnam sobre o significado e a intencionalidade". Cognitio-Estudos, V. 11, N. 1, 2014, p. 86-97.

[3] Clark, Andy & Chalmers, David. "The Extended Mind". Analysis, V. 58, N.1, 1998, p. 7-19. Um volume crítico em torno desse artigo foi organizado por Richard Menary. The Extended Mind. Cambridge, MA: The MIT Press, 2010. 

[4] É comum tomar a tese da mente estendida como comprometida com o funcionalismo, que identifica fenômenos mentais de acordo com os seus papeis funcionais e causais. Justamente por que o caderno de notas cumpre, na cognição de Otto, a mesma função que as partes do cérebro responsáveis pela memória de longo prazo cumprem na cognição de Inga, a mente pode se estender para fora do cérebro na medida em que partes do ambiente venham a cumprir as mesmas funções que eram antes cumpridas por partes do cérebro. Para uma discussão mais detalhada do papel do funcionalismo na tese da mente estendida, veja Rowlands, Mark. The New Science of the Mind: From Extended Mind to Embodied Phenomenology. Massachusetts: The MIT Press, 2010. p. 98-104.

[5] Para uma discussão mais detalhada sobre as interpretações desse experimento de pensamento, veja Rowlands, Mark. The New Science of the Mind: From Extended Mind to Embodied Phenomenology. Massachusetts: The MIT Press, 2010. p. 64-67.

[6] Veja Ned Block elaborando essa objeção nesta conferência: https://www.youtube.com/watch?v=1fG8eIJp5AY

[7] Um exemplo muito interessante de sistema acoplado envolvendo dois agentes pode ser visualizado aqui. Basicamente, dois agentes têm a tarefa de manter um certo número de ovelhas virtuais em uma determinada região da tela. Por meio de controles, eles podem repelir ovelhas que tentam sair dessa região. Inicialmente, eles tentam estratégias individuais, perseguindo ovelhas fugitivas. No entanto, elas não se mostram efetivas. Após uma sequência de interações, seus comportamentos começam a se coordenar uns com os outros estabilizando em uma estratégia de movimento oscilante em torno das ovelhas que se mostra efetiva. Para uma explicação mais detalhada desse sistema, veja Richardson, Michael J. et al. “Modeling Embedded Interpersonal and Multiagent Coordination.” Proceedings of the 1st International Conference on Complex Information Systems (January), 2016, p. 155–64.

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