Pular para o conteúdo principal

[82]

A filosofia de boteco, aquela feita sem muita preocupação acadêmica, através do livre pensar, ainda pode mudar a vida de uma pessoa, pode ter um efeito sobre o seu comportamento e até mesmo sobre a sua psicologia, despertando ou retendo emoções. Mas o que muda na vida de uma pessoa ao entrar numa discussão mais técnica sobre indexicais, a natureza conceitual da experiência perceptiva e outras coisas mais obstrusas? Muito pouco ou quase nada. Ou talvez mude, pode ser que aqui o correto fosse pensar que importa mais a filosofia estar adequada à linguagem a qual a pessoa está acostumada, que ela seja inteligível, e um perito em indexicais certamente vai incorporar cada nova informação sobre o assunto ao seu mundo e à sua práxis.

Comentários

Anônimo disse…
Será mesmo que os dois mundos propostos não podem estabelecer diálogo, e que cada sujeito incorpora apenas o que já de certa forma lhe compõe? Que a construção pode ser formatada e adequada?
Eros disse…
O diálogo entre os dois mundos parece demandar uma ponto comum, ainda que mínimo, a partir do qual a tradução é feita. Como o absolutamente novo poderia adentrar se for reconhecido pelo sujeito apenas como ruído?
Anônimo disse…
E do que os pequenos ruídos são capazes...o que podem despertar...o inesperado pode surpreender e ir além do que esperamos da compreensão alheia...
Eros disse…
Sim, os ruídos podem *causar* transformações, surpreender e até alargar o horizonte da compreensão pelo impacto causado, mas a tradução parece-me requerer um elo comum.
Anônimo disse…
Depende do que entendemos por tradução...se esta tiver como possibilidade única um conjunto de códigos previamente estabelecido, talvez. mas se compreendermos como possibilidade também o que o sentido proporciona, ou o novo, o inusitado, a reinvenção, a releitura, então, talvez haja criação...releitura...são outras interpretações...
Eros disse…
Sim, a tradução seria meramente o mapeamento de sentenças de uma linguagem em sentenças de uma outra. Contudo, pensando mais na interação entre "mundos" radicalmente diferentes, então aí o novo realmente tem um papel significativo no alargamento da compreensão. Podemos pensar assim: dois mundos radicalmente diferentes se cruzam. Inicialmente, um é ruído para o outro. Com o tempo, um vai imergindo no outro, os choques vão reconfigurando os sentidos, práticas de uns são mescladas com práticas dos outros, até que uns e outros se comunicam sem ruído. Nesse processo de confronto, cada qual incorporou e criou em sua linguagem novos conceitos, novas práticas lingüísticas, houve, assim, um alargamento da compreensão. Antes do choque, poderíamos dizer que eram mundos apenas relativamente incomensuráveis.

A linguagem, parafraseando lá o físico, é finita, porém sem fronteiras.
Anônimo disse…
E podemos ainda observar todas as outras linguagens que não possuem palavras...cógidos inteligiveis pela sensibilidade...
Eros disse…
Linguagens visuais, linguagens corpóreas, há muita informação trafegando por aí sem palavras.

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...